Rosel
A Rosel, em consideração pelas nossas colegas, merece uma página à parte.
Instalada desde há décadas mesmo no centro da cidade, foi o ponto de encontro de senhoras e um dos poucos locais públicos onde, nos anos sessenta, uma menina de boas famílias poderia entrar sem perder a virtude. Por essa altura, os rapazes e as jovens mais desinibidas ou de famílias menos conservadoras, andávamos pela nossa Belar. A Rosel tinha o charme das casas de chá dos anos sessenta, onde o guloso mais exigente se podia deliciar com alguns dos melhores bolos de Portugal (não estou a exagerar). Para estimular a memória gustativa de muitos lambisqueiros, aqui vai a lista, não exaustiva, da doçaria criada pelas experientes mãos do mestre pasteleiro da Rosel: os babás, os éclair, os queques da madeira, as maravilhosas maravilhas, os rins, os pastéis de nata e, deixo para o fim, os croissants e as bolas de Berlim. Regressado a Castelo Branco, alguns anos depois, já na década de 80 e 90, a Rosel passou a fazer parte do meu roteiro diário... Depois de jornal comprado no quiosque do Vidal (e de um dedo de conversa com o Zé do Quiosque, outra figura incontornável dos nossos temp, me aprontava para ler na Rosel as gordas com o cafezinho da manhã, decidia interiormente que era mesmo só o café. Mas mal me sentava o senhor António logo e, sem dar oportunidade de nos defendermos atacava: Oh senhor professor, é o café e a bola de Berlim do costume, não é verdade? E eu, apanhado pelas teias manhosas da gulodice, calava-me e decidia para mim que amanhã é que era.
O academista Albino Forjaz de Sampaio em Volúpia (A Nona Arte: a Gastronomia) revela o segredo do cozinheiro galego da tasca do Bairro Alto onde, nos anos quarenta, um luzidio grupo de intelectuais se alambazava com pratadas de iscas (com ou sem elas). Quando, de anos em anos o galego ia de férias, a sua maior preocupação era limpar profundamente a frigideira que nunca antes era lavada, para deixar mal parados os créditos do substituto. Também na Rosel, quando os croissants perdiam a textura e sabor que os tornava tão especiais, era certa a explicação: O pasteleiro, do qual apenas conheço a arte, estava doente, a mulher estaria a substituí-lo mas os segredo da confecção nem a ela os revelava...
No final dos anos noventa, casa mantinha ainda algum charme, a clientela continuava fiel mas os tempos eram outros, a Dona Zezinha entretanto faleceu, e a hora era de modernizar. Depois fechou provisoriamente para obras, e passou-se para o outro lado da rua, para a esplanada onde faltavam os bolos, mas sobravam a simpatia e a diligência do senhor António e do senhor José.
Já sabemos como é em Portugal. Temos o péssimo hábito de tornar o provisório definitivo, e foi o que aconteceu ao encerramento temporário da Rosel que se tornou definitivo e os bolos deram lugar aos telemóveis. ..
Que melhor forma de homenagear a Rosel senão dizer que já não me lembro da última vez que comi um croissant ou uma bola de Berlim como as que lá se faziam? Agora resta-nos a Belar. Mas até quando é que o sr. Marçal e a dona Helena vão resistir?
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